» JOÃO [8]
1 Mas Jesus foi para o Monte das Oliveiras.
2 Pela manhã cedo voltou ao templo, e todo o povo vinha ter com ele; e Jesus, sentando-se o ensinava.
3 Então os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; e pondo-a no meio,
4 disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério.
5 Ora, Moisés nos ordena na lei que as tais sejam apedrejadas. Tu, pois, que dizes?
6 Isto diziam eles, tentando-o, para terem de que o acusar. Jesus, porém, inclinando-se, começou a escrever no chão com o dedo.
7 Mas, como insistissem em perguntar-lhe, ergueu-se e disse-lhes: Aquele dentre vós que está sem pecado seja o primeiro que lhe atire uma pedra.
8 E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra.
9 Quando ouviram isto foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, até os últimos; ficou só Jesus, e a mulher ali em pé.
10 Então, erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém senão a mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?
11 Respondeu ela: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus: Nem eu te condeno; vai-te, e não peques mais.
Nossa empresa no Brasil acaba de completar 30 anos, e no Japão, 45 anos. Vivemos, portanto, um tempo de festividades e comemorações, e eu soube que um belo monumento foi erigido no escritório principal em Iwata, no estado de Shizuoka: algo que inspire os funcionários, e cuja inscrição é "KYO AN SHI KI" (em inglês, "be prepared for danger in times of peace"). Em outras palavras, estar preparado para o perigo em tempos de paz. Há ainda uma bela palavra japonesa que nos motiva e nos excita na empresa: é "KANDO", que significa sentimento simultâneo de profunda satisfação e intensa excitação que experimentamos quando encontramos algo de excepcional valor - algo que toque os corações. Nossa pregação terá por referencial de memória, portanto, "KYO AN SHI KI" ou "JU AN SI WEI" que é a forma chinesa para o provérbio acima ("ready for anything", em inglês), e eu gostaria que cada um pudesse decorar, guardar na mente a expressão e seu significado.
Ao ler a passagem no capítulo 8 de João, podemos, eu acredito, visualizar a cena no Templo, que eu penso ter ocorrido no lado de fora. Uma mulher arrastada por alguns homens, e que o fato de ser mulher nesta situação já traduz por si só toda a fragilidade do ser, sua condição indefesa... Estava sendo levada para um "julgamento", com a sentença já definida.
Não sei se posso chamar a isto de julgamento, uma vez que esta palavra pressupõe incerteza de resultado: se constatada inocência, a sentença será oposta à constatação de culpa. Mas no caso em questão, ao que parece, insisto, nenhuma chance havia que pudesse ser favorável à mulher.
Vemos, portanto, a ré, os soldados, os acusadores, uma multidão insuflada por líderes religiosos, e um juiz. Pode-se então ver claramente formado um tribunal no meio de uma praça, em seu ambiente natural, e com todos os requisitos necessários ao trabalho.
Ao que parece, os sacerdotes e escribas estavam "para o que der e vier", sem medir consequências. A multidão também "estava para o que der e vier", e faria qualquer coisa ao menor estímulo... A mulher estava "para o que der e vier", mas com a conotação passiva, e portanto, já havia entregue os pontos.
Havia uma acusação formal, havia uma acusada, a prova do crime, as testemunhas, a promotoria, o juiz, enfim, o quadro exposto sugere de forma clara a figura de um perfeito tribunal.
Contudo, permito-me observar alguns pontos que aparentemente tornam este tribunal em um tribunal de exceção - algumas falhas que os protagonistas e os interessados simplesmente ignoraram, ou melhor dizendo, quiseram ignorar, constituindo-se na mais absoluta arbitrariedade, o que tornaria ilegítimo o julgamento.
- Primeiro: Não se pratica um adultério sozinho, isoladamente. Há que se ter um coadjuvante. Onde se encontrava o cúmplice? Porque, de acordo com a lei vigente, ele não fora arrastado junto com a mulher ao local de julgamento? Quem livrou o moço, com que autoridade, e baseado em que lei? Porque o preservaram?
- Segundo: Noto a falta de um advogado de defesa. Qualquer pessoa, por mais primitiva que seja a civilização, teria direito à contestação, à defesa, ao contraditório... Onde estava o advogado?
E outra coisa: sabemos que o julgamento realizado no calor do momento, sem ao menos um tempo necessário ao "esfriamento dos ânimos", para que "se baixe a poeira", é fortemente influenciado por paixões e fatores sentimentais que na maioria das vezes, conduz a decisões pouco justas.
Vejamos a mulher: arrasada, arrastada, talvez com vestes rasgadas, assustada, sem condições de argumentar absolutamente nada, e se interrogada diretamente não teria outra coisa a dizer, senão confessar o delito, e teríamos, com a confissão, a "rainha das provas". O flagrante, mais a confissão, condenavam inexoravelmente a pobre moça à morte violenta, que segundo a lei, através de pedradas.
Eu não posso continuar, e perder a oportunidade de dizer que a cena que envolve a mulher adúltera é apenas uma figura muito tênue da situação de todo homem e toda mulher que terão de ser julgados por seus pecados (..."porque todos compareceremos diante do tribunal de Cristo"), tendo Satanás como acusador e sem um advogado capaz, com autoridade, conhecimento e poder para reverter a sentença. No lugar da mulher adúltera, podemos escrever o nosso nome, e nos sentirmos arrastados ao tribunal de forma semelhante.
MAS TÃO SOMENTE JESUS
Os arquitetos daquele plano contra Jesus eram os escribas e fariseus (não posso dizer que se encontravam em "JU AN SI WEI", mas na mais negativa conotação da expressão - pronto para o que der e vier), que de qualquer forma queriam encontrar motivos para responsabilizar Jesus por ofensa à lei, ou ao imperador.
Eles mesmos não sujavam suas mãos atirando pedras e matando, mas insuflavam pessoas que fizessem o trabalho sujo por eles. Para alcançar o intento eles mobilizavam recursos, influíam multidões, e todas as pessoas naquela praça, e a pobre mulher adúltera faziam parte apenas de um mero detalhe...
Nem venha me dizer que os sacerdotes estavam preocupados com a mulher ou com o homem adúltero, ou qualquer outro zelo imaginável. O alvo de ataque era Jesus, e o palco armado praticamente O deixava sem saída.
Nós não somos um objeto desejável, de tanto valor, que somos disputados por Deus e pelo diabo. Nós somos de Deus, fomos feitos por Ele e para Ele, à Sua imagem e semelhança, e Ele nos resgatou com o próprio sangue. O que o diabo quer fazer é afrontá-lO, e dizer a Ele: - veja os pecados daquele que foi feito à Sua imagem! Veja no que eu transformo a Sua imagem...
Irmãos, para o diabo nós somos apenas um pequeno detalhe. Para Deus, nossa alma vale mais que o mundo inteiro. Para o inimigo de nossas almas, não valemos absolutamente nada. O esforço dele em nos acusar reside única e exclusivamente no mesmo interesse que movia escribas e fariseus contra a moça: atacar Jesus!
A multidão participava do espetáculo, levada pela inteligência dos sacerdotes, inspirada pelo aparente zelo pela Lei, e o alvoroço público daria legitimidade ao processo por eles imaginado. Mas se isto fosse verdadeiro, se o zelo fosse realmente o único motivo, o homem adúltero também seria julgado, e não somente a mulher.
Eu chego a pensar, e me atrevo respeitosamente a supor, uma vez que isto não se encontra expresso na Palavra, que os sacerdotes planejaram aquela situação com o homem adúltero, ignorando a mulher, seus sentimentos, e todas as cruéis consequências que se seguiriam, apenas e tão somente para embaraçar Jesus e envergonhá-lo diante de todos. Tenho para mim que o tal homem foi "comprado" pelos sacerdotes. Afinal, não seria a única vez que usariam do expediente de "comprar favores".
Eu repito, que Satanás (este também está pronto para o que der e vier, mas não em JU AN SI WEI) não se importa com você, se vai magoá-lo ou não, se você tem sentimentos ou não. Os demônios rugem ao seu redor, não porque se interessam por você ou pelo que é seu, mas para afrontar e aborrecer a Jesus, e ao reino do céu! Ele veio para matar, roubar e destruir, porque é movido pelo ódio, e jamais por interesse em seu bem estar.
Voltemos ao julgamento, e examinemos um pouco mais detidamente as chances da ré. O texto bíblico deixa clara a existência da prova do ato delituoso. Ela fora apanhada em flagrante adultério. Qual advogado, diante desta circunstância, atuaria em favor da moça? O flagrante enfraquece brutalmente a defesa, e destrói toda a lógica de argumentação que o advogado possa traçar. Poder-se-ia alegar algum motivo subjetivo, passional, mas ao que parece, dificilmente resistiria à força da lei, e a livraria da sentença de morte.
Jesus, por sua vez, liquidaria Seu ministério qualquer que fosse a atitude que adotasse: - seria considerado inimigo da Lei, e inimigo de Moisés, se não condenasse a moça; não lhe dariam mais ouvidos, porque se tornara um desobediente da Palavra - e mais - por outro lado, colocaria Sua pregação em conflito, caso a condenasse diante de todos. Afinal, Sua pregação tinha por base o amor e o perdão.
Qual é o papel do juiz? Ele não pode criar leis. Ele é um aplicador da lei. Ele deve conhecer profundamente a lei, e aplicá-la aos casos concretos. Vejamos, apenas para exemplo, alguns artigos do Código Penal Brasileiro:
Código Penal Brasileiro (Trecho Ilustrativo)
Art. 59 - O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime... estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime as penas aplicáveis.
Art. 138 (Calúnia) - Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime: Pena - detenção, de seis meses a dois anos, e multa.
Art. 139 (Difamação) - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa.
Art. 140 (Injúria) - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
Quer dizer, a Jesus, como juiz, não restava alternativa alguma que não fosse aplicar a lei já estabelecida. Há algo maravilhoso em Deus, e nós aprendemos isto: em Sua soberania, Deus estabelece regras claras, e mais que isto, Se submete às regras, dando-lhes validade. Jamais, no caso em pauta, Ele poderia ou diria que a mulher não fosse apedrejada - Ele não violaria a lei.
Contudo, sendo legislador, e portanto o autor das leis, e juiz, e o único desprovido de pecados, foi também o único entre os presentes a pronunciar as palavras que levariam as pessoas a confrontar consigo mesmas - Ele mudou o curso dos acontecimentos, e levou as pessoas a refletir, e concluir que se encontravam na mesma condição da mulher adúltera: em pecado!
Quando as pessoas tiveram seus pecados identificados, perderam a força de ataque, e baixaram vagarosamente as mãos, deixando o local uma a uma, passo a passo, a ponto de mesmo os acusadores diretos, e mesmo os sacerdotes, e escribas, e os zelosos da lei abandonarem a praça do Templo.
"Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus"
Agora permita-me passar para você um dos mais belos e poderosos versos de toda escritura. Provérbios nos dá estas palavras proféticas de Cristo: "Então eu estava com ele e era seu arquiteto, dia após dia era as suas delícias, folgando perante ele em todo o tempo; regozijando-me em seu mundo habitável, e achando as minhas delícias com os filhos dos homens." (Provérbios 8:30,31).
Amados, nós somos os filhos mencionados aqui! Desde o início da fundação da terra, Deus previu um corpo de crentes unidos a Seu filho. E mesmo então o Pai se deleitou e se regozijou nesses filhos. Jesus testifica: "Eu era o deleite de meu Pai, a alegria de Seu ser. E agora todos aqueles que vêm a mim em fé são deleite dEle também!"
Termino a pregação, retornando ao seu começo: KYO AN SHI KI! Prepare-se para o perigo nos tempos de paz! Entregue sua vida por completo a Ele, que é o Legislador, O Advogado, O Juiz! Se você se preparar agora, passará por cima dos problemas nos tempos de crise!
Pr. Mario Martins Rocha